Uma em cada seis
adolescentes tem uma vida sexual activa sem utilizar qualquer
contraceptivo, revela um estudo sobre as práticas
anticoncepcionais das portuguesas, que apurou ainda uma maior
utilização da pílula do dia seguinte pelas jovens.
A
"Avaliação das Práticas Contraceptivas das
Mulheres Portuguesas" é uma iniciativa conjunta da Sociedade
Portuguesa de Ginecologia (SPG) e da Sociedade Portuguesa de Medicina
de Reprodução (SPMR), cujos resultados definitivos foram
apresentados terça-feira, Dia Internacional da Mulher.
Trata-se de um
estudo nacional que envolveu cerca de 3.900 mulheres, com idades entre
os 15 e os 49 anos, residentes em Portugal Continental, Madeira e
Açores.
Segundo os
resultados preliminares desta avaliação, 16 por cento das
adolescentes não fazem qualquer contracepção,
apesar de serem sexualmente activas.
A quantidade de
mulheres que já recorreram à toma da pílula do dia
seguinte aumenta à medida que diminui a sua idade: 11,2 por
cento das mulheres já alguma vez recorreram à toma da
pílula do dia seguinte, valor que aumenta para 32,9 por cento
nas adolescentes.
Os autores do
estudo consideram que esta conclusão expõe "claramente as
deficiências na contracepção neste grupo em
particular [adolescentes], onde uma gravidez não planeada
poderá ter consequências mais significativas".
O presidente da
Sociedade Portuguesa de Ginecologia, Daniel Pereira da Silva, disse
à Agência Lusa que esta é uma das principais
novidades da investigação e que a mesma "surpreende".
"Na nossa
prática clínica temos a noção de que
são as mulheres mais jovens que recorrem à pílula
do dia seguinte, mas nunca esse facto foi espelhado em dados tão
concretos", acrescentou.
O estudo aponta
ainda para "limitações óbvias a nível do
grau de conhecimento da população portuguesa em
relação à contracepção em geral e
à correcta utilização dos diferentes
métodos contraceptivos".
Por um lado, as
mulheres portuguesas têm um "elevado grau de conhecimento em
relação aos diferentes métodos contraceptivos
disponíveis, com particular ênfase para a pílula, o
preservativo masculino e a laqueação tubária,
todos identificados por mais de 90 por cento das entrevistadas".
No entanto, outros
métodos - como o adesivo transdérmico, o implante
subcutâneo e o anel vaginal - foram menos identificados, tendo
sido referidos por 50 a 60 por cento das entrevistadas.
A esmagadora
maioria das mulheres (87 por cento) considera-se suficientemente
informada sobre os métodos contraceptivos, mas estes valores
são ligeiramente menores na população entre os 15
e os 19 anos.
"A pílula
é o método contraceptivo mais usado pelas entrevistadas
(88,3 por cento), seguido pelo preservativo masculino (66,5 por
cento)".
Apesar da grande
utilização da pílula, o estudo apurou que entre
24,1 por cento e 75 por cento das entrevistadas referiu que alguma vez
não seguiu as indicações correctas em
relação à utilização de
métodos contraceptivos, tendo o valor mais alto sido registado
com a pílula.
Das utilizadoras
de pílula (70,4 por cento das entrevistadas que estavam a fazer
contracepção), três em cada quatro indicaram que
já alguma vez se tinham esquecido de tomar este contraceptivo.
Este valor
é maior entre as adolescentes, grupo em que nove em cada 10
utilizadoras se esqueceu alguma vez de tomar a pílula.
A maioria das
entrevistadas (70 por cento) assumiu esquecer-se de tomar a
pílula um a três ciclos por ano, sendo que 15 por cento se
esquece de tomar a pílula em todos os ciclos, número
ainda mais elevado entre as adolescentes, onde foram alcançados
valores na ordem dos 22 por cento.
Os autores do
estudo realçam "um aspecto extremamente significativo":
"Não obstante as entrevistadas se considerarem satisfeitas com a
informação relativa a contracepção, 22,9
por cento já utilizaram o coito interrompido, um método
reconhecidamente falível".
Mais de 80 por
cento das entrevistadas entre os 15 e os 19 anos abordou o tema da
contracepção na escola, contra apenas 17,9 por cento do
grupo entre os 40 e os 49 anos, o que evidencia "uma tendência
extremamente positiva".
Durante as
entrevistas - recolhidas entre Novembro de 2004 e Fevereiro de 2005 - a
maioria das entrevistadas a fazer contracepção situava-se
entre os 20 e os 39 anos, com valores ligeiramente abaixo dos 77 por
cento.
O estudo destaca o
"elevado número de casos de adesão parcial, nomeadamente
à contracepção oral, contribuindo para um maior
nível de falências".
"Este aspecto,
comprovado igualmente pela elevada taxa de recurso a métodos de
emergência como a pílula do dia seguinte, é
particularmente grave entre a população adolescente".
Os resultados do
estudo evidenciam "a necessidade de focalizar e incrementar as
acções educacionais junto da população de
maior risco e, ao mesmo tempo, de utilizar racionalmente outros
métodos contraceptivos que possam proporcionar níveis
mais elevados de adesão à terapêutica".
Segundo a
investigação, 18,9 por cento das adolescentes e 35,9 por
cento das mulheres entre os 20 e os 29 anos já suspeitou de uma
potencial gravidez não desejada.
fonte: Açoreano Oriental. 2
Março de 2005
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