A pílula permitiu o sexo sem filhos,
o futuro será ter filhos sem fazer sexo
Adiar a maternidade poderá deixar de ser um problema para as
mulheres, acredita Carl Djerassi. A ciência, tal como lhes

permitiu controlar
a fertilidade, poderá ajudá-las a ser mães sem
risco quando biologicamente isso é já um desafio e um
problema.
Cada vez mais as mulheres adiam a maternidade. O que é
possível graças à pílula. Mas isto levanta
o problema crescente das gravidezes de risco. O que pensa desta
situação?
Biologicamente, a mulher deveria ter filhos aos 18 ou 20 anos e ir para
a universidade depois. Mas a vida não é assim e elas
acabam por ter que escolher entre ser mães ou terem uma
profissão. A maior contribuição da pílula
foi tornar possível a independência das mulheres, tornando
possível o sexo sem reprodução. A
fertilização in vitro (FIV) permite o reverso:
reprodução sem sexo. Essa separação
já se tornou comum: o sexo é para o amor, curiosidade,
divertimento. Mas não para reprodução.
Mas adiar a maternidade pode trazer outros problemas...
Exacto. E não só de fertilidade, mas também
problemas genéticos. É por isso que as grávidas
com mais de 35 anos fazem amniocenteses, para, em caso de problema,
poderem abortar. Mas com os métodos de FIV, é
possível ao fim de três dias analisar o embrião,
para ver se tem algum problema. Ou seja, antes de ser implantado no
útero da mulher. O aborto deixa de ser uma questão. Penso
que a FIV pode ser a solução para as mulheres que adiam a
maternidade por razões profissionais.
Portanto, o futuro será o de filhos sem sexo, mesmo que
não haja problemas de infertilidade?
Sim. Não para todas, mas para algumas. Dentro de 10 a 20 anos,
pessoas sem problemas de infertilidade irão usar os
métodos de FIV e serão quase exclusivamente mulheres a
tomar essa decisão. Por outro lado, temos ainda o facto de a
mulher já nascer com um determinado número de
óvulos, enquanto o homem está continuamente a produzir
espermatozóides. Quando uma mulher tem 35 anos, perdeu 95% dos
seus óvulos. E os restantes estão a envelhecer
rapidamente. Num futuro próximo, as mulheres poderão
colher óvulos aos 20 anos para congelar. Ainda não
é possível, mas há muita
investigação. Assim, uma mulher poderá
guardá-los e ter filhos aos 40 ou 45. Elas têm de ter
opção, como os homens. Se um homem de 50 anos tem um
filho, tudo bem, mas se for uma mulher...
Isso não é desafiar a natureza?
Sim. Estamos a saltar etapas do processo da evolução. Mas
não será o que estamos a fazer com as pessoas
inférteis? É possível tratar agora casos de
extrema infertilidade, como é o caso dos homens sem
espermatozóides.
Mas os filhos desses homens serão igualmente inférteis...
Exacto. Poderíamos dizer a quem sofre de infertilidade que
há normalmente boas razões biológicas para
não ter filhos. Por exemplo, as pessoas com esclerose
múltipla têm graves problemas de infertilidade. Talvez
seja um mecanismo da evolução destinado a travar a
disseminação da doença. Mas vão dizer isso
aos pais... Os Estados acreditam que podem legislar essas
matérias. Mas eu não. O sexo e a reprodução
são as coisas mais íntimas e as pessoas fazem as suas
próprias decisões. Proibir só leva ao turismo
médico e isso não é uma resposta ao problema.
fonte:
Diário de Notícias
21.02.06