É aquilo que os
especialistas chamam de gravidez na 5.ª década, uma
situação que, em dez anos, ganhou cada vez mais adeptas
no nosso país, o que é confirmado pelos números:
de 1,7, a percentagem aumentou para 2,6.
Só em 2003, segundo dados do Instituto Nacional de
Estatísticas (INE), 2899 mulheres acima dos 40 optaram por
aumentar o agregado familiar, mais do que aquelas que decidiram ter um
filho aos 20 anos (2794). “Um valor elevado se tivermos em conta o
número total de partos”, explica Teresinha Simões,
ginecologista e obstetra na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.
Esta realidade não é exclusiva de Portugal. A moda de ter
filhos cada vez mais tarde existe um pouco por todo o Mundo e parece
ter vindo mesmo para ficar. Nos Estados Unidos, entre 1991 e 2001, a
percentagem de mulheres que teve o primeiro filho depois dos 40 anos
aumentou 70 por cento. “Tendência que se verifica também
um pouco por toda a Europa”, afirma a especialista.
Maior esperança de vida, métodos contraceptivos mais
eficazes e uma maior aposta na vida profissional são algumas
razões que podem explicar por que é que as mulheres
escolhem ter filhos cada vez mais tarde. “Há mais e mais
mulheres a estudar e, a partir do momento em que isso acontece, surge a
perspectiva de uma carreira”, refere Teresinha Simões. “Para
muitas, um filho pequeno é interpretado como um entrave à
sua vida profissional.”
MITO A DEITAR POR TERRA
Desenganem-se, no entanto, aquelas que pensam que se pode engravidar em
qualquer idade. Apesar de todos os avanços tecnológicos,
a menopausa mantém-se na mesma altura, limitando a idade
fértil das mulheres. “Existe muito o mito, hoje em dia, que se
pode engravidar em qualquer altura, mas a fertilidade depois dos 40
é muito inferior há que existe entre os 25 e os 30 anos”,
explica Teresinha Simões. “É importante que as mulheres
que decidem engravidar depois dos 40 tenham noção que vai
ser cada vez mais difícil”, acrescenta.
E não é só a diminuição da
fertilidade que importa ter em conta. Quanto mais tarde engravidar,
maiores são os riscos que a mulher e o bebé vão
correr. Por exemplo, enquanto a taxa de aborto natural aos 20 anos
é de 10 por cento, acima dos 45 ela sobe para os 90 por cento.
“Ou seja, em cada 100 gravidezes, 90 não vão chegar ao
fim”, alerta a médica.
A este factor junta-se ainda a possibilidade acentuada de anomalias
cromossómicas (como a trissomia 21), o risco duas vezes superior
de hipertensão (problema que vai condicionar a
evolução da gravidez, provocando atrasos no
desenvolvimento do feto), uma maior probabilidade de um parto
prematuro, assim como um risco quatro vezes superior de morte ‘in
utero’. “Ou seja, ter o primeiro filho depois dos 40 é de
evitar. Até porque, apesar da esperança de vida ser
maior, quem tiver um filho aos 50 anos, vai ter filhos adolescentes aos
70, numa altura em que não há a mesma paciência
para gerir os problemas da idade.”
IDADE POUCO ACONSELHÁVEL
As razões para aumentar a família em idade mais jovens
são muitas, mais ainda sabendo-se que a gravidez depois dos 40
pode mesmo condicionar a esperança de vida das grávidas,
como explica Teresinha Simões. “A gravidez tardia pode aumentar
o risco de cancro da mama ou piorar problemas cardíacos que a
mulher já tenha. E pode acontecer que a mãe não
esteja cá para ver os filhos crescer.”
GESTAÇÕES
COM FINAL PRECOCE
Uma avaliação feita entre as mulheres que tiveram
bebés na Maternidade Alfredo da Costa (MAC) em 2002, 2003 e
2004, cujos números foram ontem apresentados no 3.º
Congresso da MAC, revela que houve 22 mulheres com mais de 45 anos
assistidas naquela unidade, ainda que a idade média das
parturientes tenha sido os 46.
A comprovar que a gravidez acima dos 45 está associada a maiores
complicações, estão os 68,2 por cento dos casos em
que se verificaram nas futuras mamãs seguidas na MAC. Problemas
que, em 41 por cento das situações, obrigaram mesmo a um
internamento, sendo o motivo mais frequente, segundo os especialistas,
a ameaça de parto antes do tempo.
Nenhuma das grávidas chegou à 39.ª semana de
gravidez. A média de idade gestacional foi 37 semanas e, em 86,4
por cento dos casos, tornou-se necessário recorrer à
cesariana. A MAC foi ainda mais longe e avaliou a escolaridade materna
que, em 50 por cento dos casos, revelou-se superior ao 12.ª ano.
EXCEPÇÕES
COM AJUDA DA CIÊNCIA
Aos 66 anos, a romena Adriana Iliescu, professora universitária
na reforma e autora de livros infantis, tornou-se a mulher mais velha
do Mundo a ter um filho. Proeza conseguida apenas com auxílio da
procriação medicamente assistida, mas que mereceu duras
críticas por parte de diferentes grupos da sociedade, desde
políticos a religiosos. Críticas que não pareceram
incomodar a sexagenária, incapaz de esconder a alegria de ser
mãe pela primeira vez, apesar da idade para ser avó.
“Não me preocupo com os dias que virão”, afirmou, em
declarações à Imprensa. “Ninguém pode
prever o futuro”, acrescentou.
Mas Iliescu não foi a primeira mulher a ter um filho depois dos
60. A polémica já tinha sido lançada em 1994,
depois de uma mulher de 63 anos ter dado à luz. Mais tarde, em
2001, uma francesa de 62 anos deu origem a nova discussão sobre
qual a idade limite para se ter filhos. Na altura, um médico
francês, membro da Comissão de Ética daquele
país, mostrava-se chocado. “A minha maior
preocupação é, sobretudo, pela criança que,
quando tiver 20 anos, vai ter uma mãe com 82.”
É para determinar que tipo de adultos vão ser as
crianças com pais diferentes do considerado a norma que se
estão a realizar alguns estudos a nível mundial. As
opiniões dos especialistas dividem-se: há os que
acreditam que não existirá qualquer trauma, enquanto
outros defendem que mães muito velhas não vão ter
condições para acompanhar os seus filhos durante todo o
tempo que estes vão precisar.
"UMA CRIANÇA
ILUMINA A VIDA"
“Quando a minha segunda filha nasceu, tinha outra disponibilidade e
consciência que não existiam quando tive a primeira”,
conta a actriz Rita Ribeiro. Depois de, com pouco mais de 20 anos, ter
sido mãe pela primeira vez, adiou a vontade de ter mais filhos
por motivos profissionais. A vida intensa no teatro assim não
permitia, até que, aos 42 anos, acolheu um novo rebento na
família. Uma gravidez planeada, sem medo do que o futuro tem
reservado, apenas o desejo de viver ainda mais tempo e com uma melhor
qualidade de vida possível. É que, afirma, a idade
não importa. “O que conta é o nosso espírito e,
nele, sou mais jovem que muitas mulheres mais novas que eu.”
Maria tem hoje oito anos. Pouco menos que os dois sobrinhos, netos da
mãe, de 11 e nove. Mas não foi o facto de ser avó
que impediu Rita Ribeiro de fazer crescer a família. “Achei que,
como já tinha passado de menina a avó, era tempo de olhar
para a minha vida e ter mais uma criança. O meu sonho, desde
cedo, era ter muitos filhos e ainda não excluí a ideia de
ter mais um.”
A actriz não pensa nas dificuldades que o futuro lhe reserva,
nas crises da adolescência que ainda estão para vir ou nos
conflitos que, enquanto mãe, vai ter de gerir. pelo
contrário, diz-se pronta para os dramas típicos da
adolescência e para acompanhar a filha, que costuma chamar de
“rainha”, em tudo o que for necessário. Afinal, conta, “uma
criança ilumina a nossa vida e lembra que todos temos uma
criança dentro de nós”.
EXTREMOS
Em 2003, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística
(INE), 3860 jovens com idades entre os 13 e os 18 anos tiveram filhos.
No outro extremo, 2899 mulheres com mais de 40 anos deram à luz
em idêntico período. Destas, 697 foram mães pela
primeira vez.
ADOLESCENTES
Ainda de acordo com o INE, das 1166 jovens de 17 anos que, em 2003,
tiveram bebés, 64 fizeram-no pela segunda vez e duas pela
terceira.
NÃO PLANEADA
Um estudo realizado pela Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa,
que avaliou 146 grávidas com idades compreendidas entre os 13 e
os 17 anos, revelou que a grande maioria tinha uma gravidez não
planeada. Em 20 casos, a gravidez foi interrompida por
malformação fetal e situação de risco para
a saúde psíquica da adolescente.
NÚMEROS A SUBIR
Ainda na MAC, considerada a maior maternidade do País, a
percentagem de grávidas assistidas com mais de 40 anos passou de
3,8, em 2003, para 4,3 durante o ano passado.
MADEIRA LIDERA
Das quatro mulheres com mais de 50 anos que, em 2003, tiveram
bebés, uma era universitária, enquanto as outras
três tinham escolaridade elevada. Quanto à sua origem, uma
era do Algarve, a segunda do Norte do País e duas da ilha da
Madeira, região que é a campeã na percentagem de
mulheres que engravidaram com mais de 40 anos, seguida do Norte e da
Grande Lisboa.
MARIDOS JOVENS
Quando se avalia a idade dos maridos da mães depois dos 50,
verifica-se que uma grande percentagem destas mulheres tem companheiros
mais jovens, com uma média de idades na casa dos 30 anos.
CULPA DO TRABALHO
Sylvia Ann Hewlett, uma economista norte-americana que foi mãe
pela primeira vez aos 51 anos, escreveu um livro sobre a maternidade
tardia e chegou à conclusão que é resultado de uma
aposta feita pelas mulheres na sua carreira. Realidade comprovada pelos
números – de acordo com uma sondagem, um terço das 1658
profissionais de sucesso nos Estados Unidos não tem filhos aos
40 anos. |