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Justiça enganada
A cantiga do
burlão
José António Lorosa de Matos é um mestre da burla.
Cumpria pena de sete anos e seis meses no Estabelecimento Prisional de
Pinheiro da Cruz – quando, em 2003, teve artes para convencer o
magistrado Rosário Teixeira, procurador-geral adjunto do
Departamento Central de Investigação e
Acção Penal de Lisboa (DCIAP), que era capaz de levar as
autoridades ao paradeiro de Rui Pedro, o menino desaparecido de
Lousada, em Março de 1998, e que a PJ nunca conseguiu encontrar.
Rosário Teixeira acreditou nas falinhas mansas do recluso,
condenado por vários crimes de burla qualificada na
região de Viseu, e intercedeu por ele no Tribunal de
Execução de Penas de Évora. O burlão acabou
por conseguir uma saída precária de cinco dias. A
licença era especial – tão especial que lhe permitia,
mediante autorização, deslocar-se ao estrangeiro na pista
de Rui Pedro.
O esquema engendrado por Lorosa de Matos estendeu-se a José
Cândido Teixeira, avô materno da criança
desaparecida, homem de posses, proprietário de uma escola de
condução e que nunca olhou a despesas para encontrar o
neto.
O recluso saiu da cadeia em 26 de Junho de 2003. José
Cândido Teixeira, esperançado nos bons ofícios do
burlão, não se poupou a esforços. Deu-lhe um
cartão de crédito (ilimitado), três
telemóveis (um de cada rede) e um Volvo S80. Lorosa de Matos
garantiu que estava na posse de informações sobre o
paradeiro de Rui Pedro e prometeu guiar a Polícia
Judiciária até ao menino. O procurador Rosário
Teixeira e o avô da criança acreditaram no burlão.
Lorosa de Matos já tinha tentado golpe idêntico com
inspectores da PJ do Porto ligados à investigação
do desaparecimento do menino. Mas os polícias não
caíram no logro.
Mal se apanhou ao volante do Volvo e com o cartão de
crédito no bolso, o burlão desapareceu – até hoje.
O avô da criança já faleceu. O menino continua
desaparecido. Rosário Teixeira, depois de ter chefiado o combate
ao crime económico na PJ, voltou ao DCIAP – hoje, dirige o
processo do ‘caso Portucale’ por suspeitas do crime de tráfico
de influência.
DESAPARECIDO DE LOUSADA
Rui Pedro desapareceu na tarde de 4 de Março de 1998. Tinha 11
anos. A mãe, Filomena, viu-o pela última vez a andar de
bicicleta. Já lá vão sete anos – e do menino
não há rasto seguro que leve ao seu paradeiro.
A Polícia Judiciária do Porto seguiu várias
pistas, em Portugal e no estrangeiro, que levaram os investigadores a
autênticos becos sem saída. O caso ainda não
está totalmente esquecido pelas autoridades: continua em aberto,
até que surjam pistas sólidas.
O pai do menino, Manuel Mendonça, tem passado estes anos a
acreditar na Polícia Judiciária – enquanto o sogro, que
tomou como missão a descoberta do neto, contratou detectives sem
reputação que lhe sugaram rios de dinheiro sem qualquer
resultado.
Filomena deixou-se ir abaixo quando o pai morreu: foi internada num
hospital psiquiátrico, no Verão do ano passado, e ainda
hoje ali passa três dias por semana. Resta ao casal a filha
Carina, de 16 anos, e a esperança de um dia receberem
notícias do Rui Pedro – se está vivo ou morto.
PORMENORES
CRIMES
José António Lorosa de Matos fora condenado a sete anos e
seis meses de cadeia, em cúmulo jurídico, por diversos
crimes de burla, falsificação de documentos,
ameaça e extorsão.
SEM RASTO
O burlão estava obrigado a regressar a Pinheiro da Cruz em 1 de
Julho de 2003. Continua em parte incerta. Tem outros processos por
crimes idênticos aos que o levou à prisão.
PROCURADOR
O CM quis ouvir procurador sobre o caso do burlão que enganou a
Justiça. “O Ministério Público não presta
declarações sobre este assunto”, disse o magistrado por
uma assessora.
Luís C. Ribeiro
fonte: publicado no Correio da Manhã
em 25.05.2005
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