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A 100 à hora
Miúdo de onze anos ao volante na auto-estrada
O ‘João’ tem onze anos, mas não traz no
rosto a alegria das crianças e há muito deixou de brincar
com carrinhos. O faz-de-conta já não parece seduzi-lo. Na
passada quarta-feira foi visto a conduzir um automóvel a
sério em plena auto-estrada de Cascais. Tinha fugido de um
centro de acolhimento, em Lisboa. Ia a caminho da casa da avó,
no bairro da Outurela, em Linda-a-Velha, Oeiras, onde o
automóvel foi posteriormente encontrado pela PSP.
Luís Ribeiro abrandara ao aproximar-se da portagem de Carcavelos
quando o Nissan se lhe atravessou à frente. “Em dois segundos
passou para a outra faixa”, conta o automobilista, um dos que
testemunhou a arriscada viagem do ‘João’. “Quando ficámos
lado a lado, reparei que a cabeça dele mal ultrapassava o
nível do volante. Era um miúdo!”
Conta quem viu, e não ganhou para o susto, que o Nissan seguia a
pelo menos a 100 quilómetros horários, cruzando faixas
como se na via não circulassem outros veículos.
Luís perdeu-lhe o rasto na saída para Linda-a-Velha.
CRIANÇA PACÍFICA
O ‘João’ é uma criança pacífica. Os agentes
da PSP, que o conhecem bem, confirmam-no. “Não é um
miúdo violento; quando sabemos que anda fugido vamos
buscá-lo e ele vem connosco”, afirma um dos agentes, adiantando
que o petiz, percebendo que tinha sido detectado, abandonou o Nissan,
furtado, em Linda-a-Velha. Foi encontrado na casa da avó e, no
dia seguinte, de manhã, conduzido ao centro de acolhimento, onde
vive em regime aberto. Nem lá permaneceu duas horas. Todas as
crianças tinham seguido para uma colónia de
férias. O ‘João’ conversou com os educadores, ocupados em
trabalhos de melhoria do espaço, mas não ficou para o
almoço. Partiu de novo.
O miúdo recusa ter conduzido um automóvel na auto-estrada
de Cascais. “Isso não é verdade. Eu não sei guiar
um carro.” Diz que apanhou o Metro, depois o comboio e mais tarde um
autocarro para chegar à casa da avó. Estava “farto” do
centro de acolhimento. Mas a PSP garante tratar-se de um ‘especialista’
em pequenos furtos. “Está num colégio em regime aberto.
De vez em quando foge e furta um carro para ir para casa.”
Nada faz o ‘João’ admiti-lo. É uma criança
blindada por dentro. Diz que passou do 3.º para o 4.º ano,
mas não sabe o que quer ser quando for grande. Talvez a pergunta
não faça sentido para quem cresceu tão depressa.
Os jogos infantis não parecem interessar-lhe. Nada parece, de
resto, interessá-lo. Tem olhos de sono. Quer que o deixem em paz.
CASA DE PORTA ABERTA
A Casa da Alameda, em Lisboa, tem sempre a porta aberta. Esse é
o perfil, definido por lei, deste centro de acolhimento de
emergência, onde o ‘João’ vive quando não
está em fuga. O petiz foi retirado à família
há cerca de um ano, por decisão do Tribunal de Menores. O
Correio da Manhã sabe que, na sequência das fugas
repetidas, está em curso um processo visando transferi-lo para
uma instituição que não permita às
crianças e jovens internados tanta liberdade de movimentos.
Os companheiros do ‘João’ encontram-se neste momento numa
colónia de férias, usufruindo dos prazeres do mar e do
campo. Ele não os acompanhou na aventura, pois preferiu uma mais
perigosa: a fuga em direcção ao bairro que conhece, o da
Outurela. Lá mora a avó. Lá estão
também os seus amigos, aqueles que deixou quando o levaram para
a Casa da Alameda, de que fala com pouco apreço. Mais do que as
saudades da família, acredita-se que é a vontade de estar
junto dos antigos amigos que leva o ‘João’ de Lisboa a Oeiras.
A adaptação ao centro de acolhimento não parece
ter sido fácil, muito menos conseguida. O miúdo reincide
na fuga. O destino mais frequente é o bairro onde vive a
avó e, antes, também a mãe, entretanto realojada
noutra zona do concelho. Entre o centro de acolhimento, a PSP e a
família há falhas de comunicação. O
‘João’ anda às vezes fugido sem que a família
saiba disso. Mas também pode encontrar-se na casa da avó
ou da mãe quando os educadores o procuram.
'JOÃO' FOI ALERTADO PARA O PERIGO
O ‘João’ “sabe que corre o risco de ser apanhado e, muito mais
grave, de magoar-se e ficar incapacitado na sequência de um
acidente de automóvel”, afirma um educador da Casa da Alameda.
O miúdo é definido como sendo “dotado” e possuidor de
“algumas capacidades”. Quanto às fugas frequentes, “estão
mais do que sinalizadas em Tribunal”.
Uma família sem estrutura deixou marcas no ‘João’. O
facto de ser oriundo de um meio com carências
socioeconómicas também influenciou a vida do petiz, de
apenas onze anos, feitos em Fevereiro. O caso dele é considerado
“muito complexo”.
UMA AVENTURA PERIGOSA
UM GRANDE SUSTO
Os automobilistas que circulavam na auto-estrada do Estoril viram um
automóvel a cruzar faixas sem qualquer cuidado, aos ziguezagues.
Não ganharam para o susto. O veículo, que parecia
desgovernado, circulava a, pelo menos, 100 quilómetros
horários. Alguns automobilistas apitaram. Ao volante do Nissan,
o ‘João’ apitou-lhes de volta.
POLÍCIA ALERTADA
Um condutor que seguia na auto-estrada de Cascais ficou chocado quando
viu uma criança ao volante do Nissan. Telefonou à PSP e
denunciou o caso, só que as autoridades perderam-lhe o rasto,
pois o ‘João’ saiu em Linda-a-Velha. Minutos depois, o Nissan
avistado na auto-estrada foi localizado no bairro da Outurela/Portela,
em Oeiras.
‘VELHO’ CONHECIDO
“A criança já é conhecida pelas autoridades.
Está num colégio em regime aberto e de vez em quando foge
e furta um carro para ir para casa”, afirma ao CM fonte policial.
"ERA UM MIÚDO"
Quando o Nissan se atravessou ia, pelo menos, a 100
quilómetros/hora. A surpresa chegou logo depois: “Quando
ficámos lado a lado, reparei que a cabeça dele mal
ultrapassava o nível do volante. Era um miúdo.”
FUGA I
Na esquadra de Carnaxide da PSP, as fugas do petiz já são
conhecidas, mas nunca assumiram tal dimensão. “Não
é um miúdo violento, quando sabemos que anda fugido,
vamos buscá-lo e ele vem connosco.”
FUGA II
O carro foi furtado na zona de Oeiras e encontrado depois em
Linda-a-Velha, perto do bairro onde reside a avó. O menor foi
devolvido pela PSP à casa de acolhimento, de onde voltou a fugir
duas horas depois.
TRANSPORTES
‘João’ desmente que tivesse conduzido o carro: “Eu não
sei guiar”, disse ele ao Correio da Manhã. Diz que apanhou o
Metro, depois o comboio e mais tarde um autocarro para chegar à
casa da avó.
FURTOS
A PSP arante que o rapaz é um ‘especialista’ em pequenos furtos:
“Está num colégio em regime aberto. De vez em quando foge
e furta um carro para ir para casa.”
Isabel Ramos / Sónia Simões
fonte: Correio da Manhã, 30.07.05
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