O que se diz dos
Açores
Numa viagem virtual pelos atalhos da Internet, encontram-se
informações sobre os Açores absolutamente
fantasiosas.

Para todos os gostos... ou desgostos.
Há por exemplo um sítio francês, da
responsabilidade de uma organização de ajuda aos
países pobres da África, que nos põe no primeiro
lugar da lista, elaborada por ordem alfabética. Mas, dito por
uma nossa Direcção Regional da Cultura de há vinte
e tal anos, pode ler-se que a música do hino dos Açores
foi escrita por Teófilo Frazão! Outros sítios
copiaram a informação, e o erro multiplicou-se, enevoando
a verdade e a memória de Joaquim Lima, regente da banda Marcial
Bom Jesus, de Rabo de Peixe, que o tocou pela primeira vez em 1894.
Não haverá alguém que lhe devolva a autoria?
Um dia destes o meu amigo Manuel Estrada, médico no Cartaxo,
descobriu um sítio do departamento de cultura de um
simpático município brasileiro. Lá se dizia que o
povoamento dos Açores foi feito à base de criminosos,
mendigos e velhos. O pior é que mesmo entre nós
não falta quem tenha a ideia de que os primeiros
açorianos foram sobretudo foragidos. Não imagino como
nasceu a lenda. Gaspar Frutuoso deixou a lista dos principais entre
essa gente, que pertencia à melhor fidalguia do Reino.
É verdade que alguns condenados foram mandados para cá,
mas não se tratava sequer de grandes criminosos, porque esses
eram castigados com a forca, membros decepados ou, mais tarde, desterro
para S. Tomé, o mais terrível dos exílios. Entre
os que vieram cumprir tal pena para Santa Maria, conta-se, por exemplo,
uma menina de dez anos, condenada por ter matado, acidentalmente por
certo, uma criança.
E será que vieram velhos, como constava no tal sítio?
Trata-se com certeza de confusão com o nome da ilustre
família dos Velhos, pois que vários foram os familiares
de Gonçalo Velho Cabral, comendador de Almourol, que se lhe
juntaram em Santa Maria, mas todos homens na força da vida ou
muito jovens mesmo. Pobres também vieram, naturalmente, para
todos os trabalhos que os fidalgos não faziam. Mas não
mendigos, com certeza. E, se eram mendigos no Reino, cá deixaram
de o ser.
No mesmo sítio dizia-se que para a colonização do
Brasil, a meados do século XVIII, foram enviados muitos velhos e
doentes. Pura invenção. Perderam-se todas as
relações de emigrantes, mas, a serem cumpridas as
exigências da Coroa, os homens não teriam mais de quarenta
anos e as mulheres trinta.
O problema parece estar na existência de duas correntes no Sul do
Brasil. Uma que vai mantendo e reavivando as suas raízes
açorianas, de que se orgulha, outra que vê nesses mais de
seis mil emigrantes a razão de algum atraso do Brasil
meridional. Em contraponto, a colonização italiana, e
sobretudo a alemã, seria a de todas as virtudes.
Ora os açorianos foram pioneiros absolutos. A sua
função principal foi assegurar a presença
portuguesa nas fronteiras com as colónias espanholas, garantindo
o cumprimento do tratado de Madrid. Para isso, tiveram de suportar
dificuldades sem conta. Se o clima não lhes era adverso,
já os terrenos agrícolas eram totalmente distintos dos
nossos. Tratava-se de solos sedimentares, menos férteis do que
os vulcânicos das ilhas, que não permitiam a maior parte
das culturas a que estavam habituados, a começar pelo trigo, o
que os obrigou a aprenderem a usar a farinha de mandioca.
Foram eles que desbravaram. Quem veio a seguir já encontrou um
ambiente propício à prosperidade cujo mérito
há quem queira atribuir-lhe em exclusivo.
Como nota final, diga-se que a Drª. Lélia Nunes, informada
por mim a respeito dos erros do sítio referido, escreveu de
imediato ao prefeito. E este também de imediato respondeu. As
informações sobre o povoamento dos Açores e a
colonização do Sul do Brasil por açorianos foram
apagadas, enquanto que a Drª. Lélia Nunes foi convidada
para colaborar na reposição da verdade.
Daniel de Sá
fonte:
jornal online Azores Digital
foto:acores.com
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