Padre acusado de agredir cegonhas à
pedrada
Marisa Rodrigues
Quem deve dar o exemplo é o primeiro a pecar. A opinião
é unânime entre os moradores da Avenida da
República, em

Olhão, que
convivem diariamente com uma realidade no mínimo
insólita. "O padre atira pedras às cegonhas,
dá-lhes com a vassoura e parte os ovos", acusam. O ninho em
causa está no frontão da igreja matriz, mas está
longe de ter a bênção do sacerdote.
"Já vi o padre em cima do telhado da igreja, de vassoura na
mão a enxotar as cegonhas, ao mesmo tempo a atirar-lhe pedras",
denuncia Maria Clarisse Estrela, moradora no terceiro andar do
prédio mais próximo da igreja. É quando
está na varanda ou no terraço que tem vista privilegiada
para aquilo que considera ser "uma sucessão de actos de
selvajaria".
Para chegar ao frontão da igreja é preciso percorrer uma
distância de cerca dois metros em cima do telhado desde as
escadas que dão acesso ao exterior. "O padre arrisca-se a cair e
magoar-se só para ir fazer mal às aves indefesas, que os
turistas tanto gostam de apreciar", diz Maria Donath, que denunciou o
caso ao Parque Natural da Ria Formosa (PNRF). Outra vizinha, Maria
Estrela , está disposta a ir mais longe. "Se não parar
com isto, faço queixa à PSP", avisa.
Os moradores criticam os maus tratos infligidos às cegonhas, mas
consideram a situação ainda mais lamentável "por
ser praticada por um homem da igreja, que deveria praticar o bem e dar
o exemplo". Uma das cegonhas tem uma pata que parece estar partida e
revela alguma dificuldade em poisar no ninho. Maria Estrela acredita
que a lesão "pode ter sido provocada por uma pedrada".
Os actos de vandalismo põem em risco não só a vida
das cegonhas, mas também a dos transeuntes. "Um dia, estava a
trabalhar junto à igreja e caíram-me muitos paus na
cabeça. Olhei para cima e vi o senhor padre a varrer o ninho com
uma vassoura e a falar muito alto", contou, indignado, José
Gonçalves Afonso, varredor de rua. Decidiu não confrontar
o sacerdote "não fosse ele ficar ainda mais aborrecido".
Técnicos do PNRF foram ao local e "verificaram apenas a
existência de elementos estranhos, como pedras, madeiras e uma
tábua com pregos no ninho", revelou, ao JN, Isabel Pires,
directora daquela instituição. "As próprias
cegonhas adaptaram-se aos novos elementos. Uma vez que o principal, o
ninho, não ficou destruído, a situação
não é grave", considerou. Por ser época de
nidificação, os técnicos "não podem mexer
no ninho".
Argumentos que Miguel Moutinho, da associação Animal,
considera "frustrantes e absurdos". "Qual é o mal menor? Retirar
as pedras e a tábua com pregos do ninho ou as aves magoarem-se
ou, em último caso, morrerem?", pergunta. O PNRF, que depende do
Instituto de Conservação da Natureza, não tem
competências directas para agir contra quem maltrata animais, mas
para Miguel Moutinho "deveria, no mínimo, alertar as respectivas
autoridades policiais".
O JN tentou ouvir o padre, Luís Gonzaga, mas a igreja estava
fechada por ser dia da folga semanal do sacerdote. Contactada a
paróquia, foi-nos dito, por alguém que não quis
identificar-se, que não valia a pena deixar recado porque "o
senhor padre não vai devolver a chamada. Está cansado das
críticas e não quer falar sobre o assunto".
No apartamento da Avenida da República, onde o sacerdote reside,
a escassos metros da igreja, ninguém abriu a porta ou atendeu os
sucessivos telefonemas ao longo de todo o dia. A diocese do Algarve
não quis, por outro lado, pronunciar-se sobre este caso.
fonte
: Jornal de Notícias
foto: sandra sousa santos (JN)
Abril
2006