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Sandro G
está de volta!
Regional
Manuel Moniz
05/05/2006 03:05:3
Sandro G.
está de volta, mas não propriamente de um filme de amor.
Na realidade, o resultado da sua última visita a Portugal, com o
chamado “disco da galinha”, foi ter sido “enganado e lixado”, como hoje
refere. E teve de regressar aos Estados Unidos sem nada. “Sabes
lá o que é estar nos EUA, com a minha mulher
grávida, e ver pela Internet que o disco estava a vender bem, as
pessoas a pedirem-me autógrafos nos CDs, e nunca ter recebido um
único euro; foi duro”.
A experiência não podia ser pior e Sandro chama
directamente de aldrabões alguns dos editores portugueses.
“Recebi da Universal Records em Portugal 4 mil euros para assinar o
contrato, mas foi tudo; a partir daí fiz imensos
espectáculos e nunca recebi nada; uma vez no Algarve deixaram-me
durante 3 dias num hotel, sozinho, sem carro e sem telefone; nem
dinheiro tinha para comer e eles nem me atendiam ao telefone…”
Depois do conflito aberto, decidiu regressar aos EUA, mas com um filho
a nascer a vida não começou de forma fácil. E hoje
assume que teve de vender droga na rua para sobreviver. “É
triste; de artista recebido por gente como o Herman José, Lili
Caneças ou Luís Evaristo, depois de ter tido
espectáculos em bons sítios, acabei vendendo droga na
rua; eu fiquei doido e revoltado”, diz com um toque de tristeza nos
olhos. “Cheguei a pensar o pior”. Nem em direitos de autor recebeu um
centavo…
Começou mal nos Estados Unidos, só que um dia decidiu que
não podia ficar na valeta durante muito tempo e que tinha de
regressar ao mundo da música. “Mas é por isso que o meu
último CD digo que ‘não preciso de um manager, para tomar
cuidado, agora tenho dois advogados, que sabem ler contratos’.
Enganaram-me bem, mas não voltam a fazê-lo”…
A oportunidade chegou com a abertura mostrada por uma empresa, a City
of Sin Records, que já produz alguns artistas na área do
Rap. O presidente decidiu apostar e a partir daí a sorte mudou.
O disco levou dois anos a fazer, tem dois telediscos e é
evidente que é uma produção de nível
profissional – já distante dos tempos da galinha.
O disco, lançado em Fevereiro nas áreas portuguesas do
leste dos EUA, vendeu rapidamente 10 mil exemplares. E Sandro trouxe
mais 10 mil, que está a oferecer aos açorianos. “O disco
está pago, porque já fiz vários
espectáculos nos EUA. Agora quero mostrar a essa gente que os
Açores são uma terra de qualidade”. Neste momento ligado
ao rapper Hex, um sobrinho seu de 22 anos que promete uma carreira de
sucesso, está a planear o lançamento no Canadá,
através da Sony. Mas na sua mente os Açores
ficarão como uma espécie de retaguarda sentimental –
enquanto que do continente ficaram poucos amigos em mente.
Mas o seu sonho agora não passa apenas por uma carreira
individual – e quer produzir artistas dos Açores. “Quero
descobrir uma nova Amália Rodrigues, uma nova Nélia
Furtado; se os grupos de cá quiserem mostrar a sua
música, dêem-me demos”.
A par da descoberta de novos talentos, Sandro G. está já
a preparar um filme sobre os repatriados, a produzir pela Vipex X
Productions e pela City of Sin Records, que tem outra curiosidade muito
do seu género: não se trata tanto de mostrar aos outros o
que é ser repatriado, mas acima de tudo passar uma mensagem aos
repatriados que eles também podem vencer.
O filme baseia-se na vida de um primo seu, Domingos Graça, que
emigrou para os EUA com 4 anos de idade, mas acabou no mundo da droga.
De um momento para o outro perdeu tudo, foi preso e depois deportado
para os Açores com nada nos bolsos. Viveu “como um cão,
nas Calhetas”, mas aguentou-se por cá, conheceu uma canadiana,
casou com ela, foi para Toronto e, longe do mundo da droga,
recomeçou a vida como empresário ligado à
construção civil. “Quero que eles sintam que se pode
aprender a lição e recuperar, vencer na vida”. O seu
objectivo principal: “eles que vejam o filme e sintam que também
podem vencer”… Ele desempenhará o papel principal, e Hex
fará de Sandro G.
Não esconde que é uma pessoa muito terra a terra – e com
um grande amor pelos Açores. “Conheço muita gente de
gravata, mas os meus amigos são aqueles que são
verdadeiros, que não têm interesses, são os que me
ajudam também”.
É por isso que diz gostar de “dizer a verdade”, mesmo que de
algum modo não esconda um certo toque de vingança pelo
que sofreu. “Eu estou dando discos; em Portugal, eu consigo ser disco
de Platina oferecendo os discos”, diz a rir. “Se eles lá fora
não querem vender os meus discos, eu dou-os. E se for preciso
mando vir mais 10 mil. Eles é que ficam a perder”… As empresas
não gostam disso, mas para ele o gostinho é especial.
Apesar de tudo, não esconde que o seu casamento e o nascimento
do filho, “Sandrinho”, lhe modificaram a vida por completo. “Por
completo, mesmo”, diz. Conheceu a mulher num bar, “tentei fazer a corte
mas fui recusado nas primeiras vezes; até que a ameacei que ia
à casa dos pais e lhe pedia a mão em casamento; ela,
assustada, lá se comprometeu a sair um dia comigo”. O pior foi
que o pai os viu juntos e expulsou a rapariga de casa. “Com 18 anos, o
que fiz foi levá-la para o meu apartamento. Ela foi
impecável e desde então nunca mais a larguei”. O filho
já nasceu nos EUA, em Cambridge – mas ele é ainda
português.
E como açoriano também não deixa de olhar para as
ilhas com uma visão crítica. “Não compreendo como
é que vão pôr tantos milhões de euros a
fazer as Portas do Mar, quando a Avenida já é maravilhosa
como é – e as freguesias têm tanto por fazer, tanta gente
a passar fome. Quem é que vai lucrar com isso? A Avenida
é linda assim, ponham esses milhões em coisas mais
importantes que há para fazer”.
fonte: Diário dos
Açores
06.06.06
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