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TOURADAS À CORDA
É a Terceira a única Ilha do Arquipélago
Açoriano onde existem criações
de gado bravo não havendo terceirense indiferente a qualquer
manifestação taurina ou que não goste ou
não se interesse por toiros.
Por isto mesmo, é um dos divertimentos mais
característicos e
preferidos pelo povo da Terceira.
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Há na Ilha duas espécies de touradas: as de praça
e as de corda. As primeiras são cópias das touradas
portuguesas de redondel; as segundas, o toiro corre pela via
pública preso pelo pescoço a uma corda de 80 metros de
comprido, na extremidade da qual há seis homens que a seguram,
fazendo-o parar quando for preciso. Estes homens usam camisola de linho
e geralmente andam descalços ou de sapatas.
As corridas de toiros à corda, verificam-se em qualquer
ponto da Ilha, excepto na cidade e o seu número é
ilimitado, começando em Maio e acabando em Outubro. Há as
tradicionais, ou sejam as que se realizam todos os anos sempre nos
mesmos lugares e em dia imediato às festas dos impérios,
dos padroeiros das freguesias e festas de Santo António, onde o
povo à margem da Igreja, se cotiza para as realizar.
Independentemente desta há as ocasionais promovidas por um
indivíduo ou grupo de indivíduos, moradores em
determinado lugar. Assim, numa mesma freguesia há várias
por ano.
foto cortesia Via Oceanica.com
O número de
toiros corridos é de quatro e a duração de tempo
para cada um, é de meia hora. Do segundo para o terceiro toiro,
há um intervalo de meia hora e de toiro para toiro, de um quarto
de hora. As touradas começam às quatro da tarde, hora
solar, e terminam ao pôr do sol.
Para o pagamento das despesas com as touradas tradicionais -aluguer dos
toiros, licenças, jantar dos pastores, foguetes e outras verbas
- o dinheiro é dado pelas comissões promotoras das
festas, cujas receitas, afinal, provêm de donativos do povo da
freguesia, para a realização das mesmas. Para as touradas
ocasionais, reúnem-se diversos indivíduos, que se cotizam
entre si, quando não são por um só
indivíduo geralmente terceirense rico que vem da América,
de visita à família.
As touradas de fama, onde são corridos toiros escolhidos a
capricho das melhores criações da Ilha. Dá-se o
nome de arraial ao lugar circunscrito para a tourada. A extensão
é curta, pois em poucos casos excede quinhentos metros lineares
e assim tem de ser para não cansar muito o toiro.
Muito antes da corrida, começam a chegar mulheres para tomar
lugar nas janelas, muros e balcões das casas para onde foram
convidadas. Cerca da uma hora da tarde chegam os toiros. Há
alguns anos duas ou três vacas enchocalhadas - vacas de sinal -
com um avanço de cinco minutos, seguiam adiante para anunciar
aos transeuntes, que atrás vinha manada de gado bravo à
solta. Os toiros apartados num curral da criação, saiam
para a estrada acompanhados de vacas bravas com chocalhos ao
pescoço e de pastores, uns atrás, outros adiante,
seguidos dos cães de pastor, animais muito ligeiros que prestam
enormes serviços no ajuntamento ou tresmalhe dos toiros.
Caminhavam devagar, mas, quando entravam nos povoados, acelerava-se um
pouco a marcha para os toiros se não espantarem e tresmalharem
à vista das pessoas que apareciam pelas janelas e balcões.
Ao entrarem no arraial, essa marcha convertia-se numa autêntica
corrida até chegarem ao toiril, ou seja um lugar reservado, em
cerrado ou boca de canada, todo rodeado de armação de
tábuas onde se encurralava o gado. No toiril havia um
caixão, recinto onde embotavam o animal e lhe amarravam a corda
ao pescoço pelo sistema de laçada. Hoje os toiros
vêm metidos em caixões que são transportados em
camionetas e postos em determinado local. Todo o trabalho assim se
simplifica, como é menor o perigo da fuga de algum animal.
foto
cortesia Fotacor
Como quer que seja
após a chegada dos toiros, o arraial povoa-se mais e mais.
Caminha-se pela estrada, pelo terreiro ou pela canada aos
encontrões. Ranchos de raparigas garridamente vestidas, alegram
as janelas, varandas, balcões e muros das casas, como
festões de flores. Os rapazes fazem-lhes frente, falam-lhes de
boca pequena e dizem galanteios. Vendedores ambulantes com cestos de
asa, em ambos os braços, vendem tremoços, milho e favas
torradas, amendoim e pevides apregoando "Olha a fava nova!...
Quintinho!... Olh'ós salgadins! ... "
O movimento é intenso e as vendas - de grossos paus dispostos
verticalmente a meio das portas, para não deixar entrar o toiro,
estão pejadas de gente. Há tascas improvisadas nas pontas
do arraial ou dentro dele em lugar seguro, oferecendo graciosamente
como puxavante o molho d'unhas: cozinhado de favas escoadas deitadas em
cestos forrados de feitos, de onde as tiram à
discrição e, depois de descascadas, as ensopam num
único prato com vinagre, sal e massa de malagueta, reduzindo o
conteúdo, ao cabo de pouco tempo, a uma massa acinzentada de
tanto chafurdarem. Mas isso não importa e ao grito de
"íamos dentro" a tasca mais e mais se enche ao passo que o
tasqueiro não tem mãos a medir para encher os copos de
vinho de cheiro.
Um foguete atirado do toiril, anuncia que se vai proceder à
embolação. Depois de amarrado o toiro, a corda sai por
uma fresta do caixão e os homens da bolsa, começam a
estendê-la para um dos lados do arraial em todo o seu
comprimento. Pouco depois um foguete anuncia que vai sair o toiro. Toda
a gente se dispersa atabalhoadamente, encontroando-se, empurrando-se,
caindo. Uns trepam pelos buracos das paredes de pedra solta procurando
poiso no cimo destas; outros escalam muros, outros refugiam-se nas
vendas, nas tascas, ou na maior parte, procuram os extremos do arraial.
Apenas alguns rapazes já graúdos se deixam ficar no
caminho, a certa distância do toiril para verem mais de perto a
saída do bicho e poderem capeá-lo.
foto
cortesia Via Oceanica.com
Então abre-se
a porta do caixão e um grande alarido anuncia a saída da
alimária, que, numa correria veloz leva adiante de si toda a
gente que se encontra no caminho, fazendo igualmente deslocar-se, numa
fuga desordenada a massa dos pacatos que na extremidade do arraial se
dispunham a ver sossegadamente a corrida ao longe. Atrás segue a
outra massa dos pacatos, da extremidade oposta, que deseja ver o que se
passa adiante. Então o toiro pára e em volta faz-se um
terreiro, onde apenas um ou outro mais audaz se afoita a passar
correndo em frente ao toiro arremedo de toureiro pelintra; mas
precisamente, quando o animal se dispõe a arremeter, logo outro,
abanando um casaco o distrai da primeira arremetida e assim por algumas
vezes até que o animal toma a querença. A expectativa
é geral. Os pastores do meio da corda tentam puxar a rês,
que já não obedece aos acenos dos que a provocam.
Limita-se a escavar e a rugir, de língua de fora e baba pendente
dos beiços. Então apresenta-se um homem de guarda-sol
aberto e cita a alimária a uns metros de distância.
É a sorte de guarda-sol.
Esquiva-se o homem à arremetida, enquanto o toiro desperto,
voltando-se em sentido contrário àquele em que ia, leva
atrás de si o que era a vanguarda e adiante, o que era a
retaguarda, com o que se não contava. Os homens da bolsa viram a
mão e procuram refúgio numa venda ao passo que os do meio
da corda se atiram contra as valetas de bruços, à
míngua de outro abrigo mais seguro e todos na ânsia
enorme, desaustinada, do salve-se quem poder, correm desordenadamente.
Há cambrelas e basta um cair para muitos outros também
caírem. Para as mulheres e para quem está em lugar
seguro, há estridências de riso, gargalhadas, vaias,
assobios, em esgares de contorsões alvares, mormente quando
algum se levanta esfarrapado de bragas à mostra nos fundilhos
das calças. O toiro pára novamente, atónito,
ofegante, esbaforido e reverte-se novamente à crença,
como eles dizem. Das portas, das vendas, dos balcões, das
varandas, das janelas, atiram-lhe com trapos velhos, batem as palmas e
gritam: "Ê toiro"! O círculo de gente à volta da
rês vai apertando, na confiança de animal cansado. Alguns
aproximam-se em corrida veloz e tocam-lhe num galho; outros
dão-lhe palmadas na nuca.
Então um pastor do meio da corda, farto de ver "acanalhar o
toiro", tenta pôr a corda sobre o lombo do animal e esticando-a
atira-lhe uma vardascada violenta que o desperta. O toiro desperto pela
chicotada arremete furioso e lança-se como um raio sobre a
multidão enquanto que a corda desenrolando-se e esticando-se
pela violência da corrida, atira com uns tantos incautos de
encontro à parede ou ao chão em quedas espectaculares,
tremendamente ridículas. Na frente não se contava com a
corda falsa nem com este arranque formidavelmente súbito, e um
dos fugitivos é colhido e esfrangalhado pelo animal. Das
janelas, balcões e varandas, as mulheres soltam gritos de pavor,
numa ânsia de pânico e da multidão levanta-se um
clamor imenso. Homens afoitos correm para o toiro, pegam-lhe de
cerneira e conseguem tirar a vítima das hastes do boi, enquanto
que outros se agarram ao rabo e à cabeçada da corda para
não o deixar arremeter.
Estas colhidas, se na maior parte das vezes são cómicas e
até ridículas, outras transformam-se em autênticas
tragédias, chegando-se a tirar debaixo do toiro um moribundo ou
um cadáver, ao passo que muitos têm sucumbido de
lesões adquiridas nestas colhidas. Mas tais acidentes,
trágicos que sejam, não impedem a
continuação da tourada e o toiro livre da pega
forçada, lá continua a carreira, levando na sua frente
uma multidão e arrastando outra. Por vezes, investe contra a
parede de um cerrado, pejada de gente e guinda para a parte de dentro,
estabelecendo pânico e confusão.
Uns saltam para fora, e outros inadvertidamente para o cerrado onde o
toiro, em campo largo, arremete furiosamente contra tudo e todos,
até que o tiram dali, à força de o puxarem pela
corda. Novamente no arraial continuam as peripécias e assim
continua o toiro a sua odisseia, até chegar a hora de o meterem
novamente no toiríl. Um foguetão anuncia a recolha do
cornúpeto, enquanto cá fora, no arraial o povo comentando
as peripécias da corrida diz: "É um bicho de ruspeito"!
Para os restantes toiros os factos repetem-se, mas, a corrida continua
com o mesmo interesse e euforia.
fonte
(Maria Alice Dias, in "Ilha Terceira", 1982)
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