O
pai do miúdo e um funcionário da empresa, que correram em
seu auxílio, acabaram, também, por sucumbir pelo mesmo
motivo.
Os factos ocorreram às 23h30 de sexta-feira, na Quinta de
Valmor, localizada numa das margens do Rio Douro, em Folgosa.
Luís da Conceição Pinto, 12 anos, encontrava-se a
jogar à bola com o irmão. O esférico saltou para
dentro de um silo, onde os camiões estavam a despejar
bagaço. Na ânsia de recuperar a bola, a criança
acabou por cair lá dentro e morrer intoxicada.
Dinis Felício Morais, 25 anos, que tinha apenas um dia de
serviço na empresa, ao deparar-se com a aflição do
miúdo, projectou-se para dentro da estrutura para o salvar.
Acabou por falecer, intoxicado, ao lado da criança.
Um outro colega de trabalho, José Raul, 47 anos, homem
experimentado nesta espécie de trabalhos, ainda entrou no silo,
mas nada pôde fazer. Saiu intoxicado, tendo de receber tratamento
hospitalar.
Adelino da Soledade Pinto, 46 anos, caseiro da quinta, estava já
deitado quando foi avisado da tragédia. “Com o desespero de ver
o filho e o colega no fundo da estrutura atirou-se lá para
dentro. Morrendo todos, lado-a-lado”, conta quem viu.
De referir que esta foi a segunda vez que a criança caiu dentro
dos silos. Da primeira vez conseguiu salvar-se.
Pai e filho eram naturais da freguesia de Penajoia, Lamego, embora
residissem naquela quinta com toda a família há anos.
A outra vítima, Dinis Morais, era natural de Tões,
Armamar, onde tinha casado há poucos anos. Dinis deixa uma filha
de apenas ano e meio.
RESGATE
O trabalho de resgate dos corpos foi levado a cabo pelos Bombeiros da
Régua e de Armamar.
“Trouxemos ambulâncias e pessoal para apoio médico. Mas,
logo que chegamos ao local, verificámos que sem material
específico não conseguíamos resgatar os corpos.
Soubemos que os colegas da Régua vinham a caminho e traziam
máscaras e botijas de oxigénio. Esperamos por eles para,
em conjunto, realizar as operações”, explicou José
Igreja, comandante dos Bombeiros de Armamar.
“Quando me deram a indicação do que tinha acontecido, dei
logo ordens expressas de que fosse levado o equipamento completo e bem
assim como requisitei pessoal especializado para este efeito”,
explicou, por seu turno, o comandante Gouveia dos Voluntários da
Régua.
Quatro bombeiros, equipados com máscara e botijas, desceram ao
fundo do silo para resgatar os três corpos, amarrados a fortes
cordas e ancorados em 26 colegas, que tinham por missão
descê-los e puxá-los. Ao todo estiveram presentes 40
bombeiros.
POPULAÇÃO DE TÕES EM CHOQUE
Em Tões, onde residia Dinis Felício Morais de 25 anos, a
população estava chocada. “Como é possível
um jovem tão bom e tão acarinhado aqui na aldeia morrer
assim”, perguntava António Pinto, vizinho do jovem. “Ele sempre
foi uma pessoa muito trabalhadora, porque queria construir uma casa
onde pudesse ir viver com a mulher e a filha de um ano e meio”,
acrescentou este popular. Naquela aldeia do concelho de Armamar, Dinis
é recordado como “uma excelente pessoa, que só não
ajudava os outros se lhe fosse completamente impossível”,
sublinhou António Pinto. “Para mim, este rapaz foi um
herói, porque perdeu a vida a tentar salvar uma criança
da morte”, atalhou António Pinto.
A família estava chocada com a morte de Dinis Morais e
mostrou-se indignada “porque no hospital não nos deixaram ver o
corpo dizendo não ter ordem do Ministério Público
para nos deixar entrar na morgue”, contou uma cunhada do jovem.
ACELERA O CORAÇÃO E PROVOCA FALTA DE AR
A fermentação do vinho emana dióxido carbono,
gás que pode ser fatal. Quem o diz é José
Fernandes, gerente da Adega Cooperativa da Batalha, explicando que o
“dióxido carbono, por ser mais pesado do que o ar, acumula-se
nas zonas baixas”. Ao inalarem o gás, as pessoas sentem
“aceleração do ritmo cardíaco, seguida de falta de
ar”. Todavia, “têm tendência a ficar no local”, continuando
a inalar o produto tóxico, o que pode ser fatal, reafirma.
José Fernandes aconselha a arejarem o local – lagares,
tanques... – antes de retirarem as massas resultantes do sangramento do
vinho. E a fazerem o mesmo aquando da fermentação.
COBERTOS POR SEGURO
O presidente da direcção da Subvidouro, Sousa Dias,
lamentando o sucedido, garantiu ao Correio da Manhã que “todos
os trabalhadores da empresa estão cobertos por um seguro que a
anterior direcção tinha feito, mesmo no caso de Dinis
Morais, que é um trabalhador sanzonal da empresa”. Quanto
às funções que os dois homens desempenhavam na
Subvidouro, Sousa Dias referiu que Avelino Pinto trabalhava na empresa
como caseiro enquanto Dinis Morais era um trabalhador que estava
colocado na zona dos silos.
A empresa dispõe de 18 silos, cada um com sete metros de altura
e com capacidade de acolher duzentas toneladas de bagaço,
material que é tratado pelos 37 empregados em
laboração contínua.
Os camiões depositam a matéria-prima e uma máquina
empurra-a para o fundo do silo, ficando numa espécie de rampa,
fofa e sem sustentação física.
“Terá sido esse o erro da criança e do Dinis Morais (que
era inexperiente, estava na casa há um dia). Só mesmo por
desespero o pai se meteu dentro do silo, dado que era um trabalhador
muito experiente. Mas, pai é pai, e quando fala o
coração não existe razão”, explicou
alguém que viveu a tragédia muito de perto, mas que
estava impedido de falar pela empresa.
Os vapores dos silos têm gases de tal maneira fortes que qualquer
trabalhador, que se aproxime quando a máquina está a
empurrar o bagaço para o fundo do silo, é obrigado a
recuar com rapidez e não foi já o primeiro que caiu
inanimado intoxicado pelos vapores.
Refira-se que, há cerca de quatro anos, aconteceu uma
explosão na destilaria que só não foi uma
tragédia graças à experiência e sangue frio
dos cinco funcionários que se encontravam, na altura, a laborar.
Os três cadáveres do acidente registado ontem foram
entregues no Hospital de Vila Real onde se vai realizar a respectiva
autópsia para determinar com exactidão a causa da
morte.
fonte:
Correio da Manhã
Luís C. Ribeiro/André
Amaral
20 de
Setembro de 2004